RÁDIO BANDEIRANTES
PROGRAMA: "BAND VAI ÀS COMPRAS"
Transcrição das entrevistas
Tema: Intoxicação Infantil por Produtos de LimpezaData: 30/01 4ª feira.
Entrevistados:
Apresentador:
Fabricantes de produtos de limpeza preparam mudanças nas embalagens para se adequar à nova legislação: a Agencia Nacional de Vigilância Sanitária vai proibir frases e nomes com apelo infantil nos rótulos.
Mas será que isso é suficiente para evitar que milhares de crianças chegem todo dia aos centros de controle de intoxicação no pais, contaminadas pelos produtos? Bebês não sabem ler e se sentem atraidas por cores e figuras dos rótulos.
A Bandeirantes já tratou desse tema por duas vezes e volta ao tema hoje pois a saúde de milhares de crianças pode estar em perigo.
Pergunta:
Quais as principais falhas nas embalagens dos produtos de limpeza e que riscos podem trazer
Luciana:
Crianças são muito curiosas e a primeira orientação de prevenção é que se mantenham produtos de limpeza, de higiene e medicamentos fora do alcance das crianças, em armários altos e trancados
Apesar de os produtos de limpeza possuírem apelos de cor e cheiro, a melhor forma de evitar qualquer acidente é a necessidade da mudança de comportamento dentro de casa.
Instigada pelo apresentador, realçou que os principais problemas são :
Novamente questionada pelo apresentador sobre como industria poderia atuar, realçou a necessidade de um trabalho consistente estabelecendo rótulos que não sejam atrativos, que não contenham bichinhos e personagens para que ela não entenda aquilo como um brinquedo. Realçou também a necessidade do apoio de legislação e fiscalização.
Pergunta:
A indústria pode auxiliar para evitar a intoxicação de crianças com os produtos saneantes?
Estanislau:
Como já colocou a Luciana, essa é uma questão muito complexa.
A indústria fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar que aconteçam acidentes
com crianças. Além disso, essa questão faz parte das preocupações da Associação e,
para resolve-la, será necessária a participação de diversos atores. Precisaremos de um
forte trabalho de educação, prevenção e conscientização, com as mães. Deverá haver
também uma forte fiscalização pela Vigilância Sanitária.
Outro fator extremamente relevante é a tendência crescente à informalidade, ou seja, empresas não legalizadas, que não passam pela fiscalização dos órgãos federais e de vigilanciam sanitária, o que é muito grave.
No ano passado fizemos um estudo, conduzido pela FIPE, que revelou uma tendência crescente à informalidade e comprovou ser o grau de clandestinidade muito elevado: 42% das águas sanitárias consumidas não são regularizadas, assim como, 30% dos desinfetantes e 15% dos amaciantes.
Essas pequenas empresas não tem nenhuma preocupação com o consumidor e com as crianças -. Muitas vezes utilizam embalagens de marcas conhecidas e vendem produtos com pouquíssima qualidade. Esse é um problema que identificamos e estamos levando para a ANVISA para um trabalho conjunto.
Radialista
Retoma a questão da industria formal, com apelo infantil em produtos (cores e personagens, como ursinhos e personagens e desenho animado) Isso é legal ou não?
Estanislau
Todos os produtos que a Abipla representa são aprovados e notificados à Anvisa. As empresas estão em copnformidade com a legislação
Aliás, não é por falta de legislação que as coisas não acontecem no país. Temos legislação excelente, mas falta implementação e capacidade de fiscalização.
Existe uma nova norma, do final de outubro do ano passado, que pede que a arte final das embalagens deve ser submetida à ANVISA, que visa inclusive o controle de imagens.
Apresentador
Sobre apelo infantil dos produtos formais, que estão nas prateleiras dos supermercados, podem por em risco as crianças em casa?
Dr. Wong
As crianças tem atração cor vermelho e azul claro, muito atrativas além dos aromas agradáveis dos produtos. Existem até detergentes com sabor de mação ou limão, e a criança não consegue distinguir. Também tenho preocupação com as embalagens de "ursinhos e bebezinhos", ou seja, desenhos que chamem a atenção das crianças, e com as tampas que não são especiais, de fácil abertura.
Não por acaso, produtos de limpeza são as principais causas de acidente entre crianças de 0 a 4 anos, que não sabem ler.
Existe legislação em outros países que exigem que água sanitária, por exemplo, tenha tampa especial. Há 6 ou 7 anos, na Suécia, foi feito um trabalho intenso no que tange à intoxicação de crianças por produtos de limpeza e o resultado obtido foi uma redução de 90% nos acidentes.
Em São Paulo, a água sanitária é a principal causadora dos acidentes, com o agravante de que hoje é permitida a soda caustica na sua formulação.
Apresentador:
Qual a participação dos produtos clandestinos entre as intoxicações?
Dr. Wong
Meio-a-meio entre produtos clandestinos e formais. Sendo que produtos clandestinos estão em garrafas de refrigerante e os formais estão em embalagens mais atraentes.
Claro que a industria pode colaborar, mas há a necessidade de conscientização dos pais, que só se dão conta do problema quando acontece com alguém da família.
Apresentador
E sua opinião, Estanislau?
Estanislau:
Volto a comentar sobre o estudo conduzido pela FIPE, que aponta para um grau muito elevado de clandestinidade em água-sanitária. Imagine o poder de atração de uma garrafa de Coca Cola (para usar um icone conhecido) com água sanitária dentro. É irresistivel para a criança.
Dr. Wong:
Tão irresistível quanto uma garrafa com formato de pato. Ou como Fofo com o ursinho, por exemplo.
Estanislau:
O produto está no mercado há muitos anos e não há tantos casos de acidentes registrados na entidade. Há até registros de embalagens de Fofo, porém com produto clandestino.
Dr. Wong
Na verdade o formato da embalagem não atrai tanto a criança quanto a disponibilidade do produto em descuido dos pais. A oportunidade faz o acidente
Luciana
Não precisamos pensar só nas crianças menores. Quando você tem um produto desses numa embalagem de refrigerante, o risco é ampliado. Soubemos de um caso, numa comunidade carente, onde uma menina de 12 anos encontrou uma embalagem de coca-cola na geladeira e pensou que fosse água.
Além do embalagens inapropriadas usadas pelos clandestinos, o acesso facilitado aos produtos é a principal questão.
Estamos todos aqui preocupados com a mesma questão.
Apresentador:
Qual é o tamanho do problema
Luciana:
Envenenamento onde se enquadra esse problema com produtos de limpeza - é a 8ª principal causa de morte em crianças por intoxicação. Em 99 tivemos 123 mortes por envenenamento, que inclui intoxicação por plantas e medicamento e não só produtos de limpeza.
Dr. Wong
Temos carência de estatísticas no Brasil. O que nós temos é sub-notificação, e geralmente temos registros apenas das mortes e não dos casos de intoxicação, que muitas vezes nem são diagnosticados.
Na estatística americana, onde é obrigatória a notificação, intoxicação por produtos de limpeza está em 2º lugar, depois de medicamentos. Portanto, aqui no Brasil, nossos números devem ser muito maiores do que a estatística registra.
Luciana:
Os numeros que indiquei são de mortalidade, e não de morbidade que são os traumas e seqüelas que ficam -. Em média, para cada morte, são 4 crianças com sequelas.
Ouvinte: Como as crianças estão acostumadas a ver monstros em desenhos e filmes, a caveira colocada em sinal de perigo, pode também atrair a atenção das crianças.
Dr. Wong:
A industria é parceira. A grande culpa é dos pais por isso a educação é importante.
Na Suecia e EUA é obrigatório o uso de tampa especial, à prova de crianças, que dificulta a abertura do produto e salva vidas.
Todo produto dever ter seu risco demonstrado de maneira clara, como desentupidor de pia e soda cáustica, por exemplo, ou mesmo amaciante (que é caustico 4% para consumidor e 8% para uso industrial) e provocam graves queimaduras.
É necessário proteger o cidadão e a tampa especial diminui tremendamente esse risco.
Com tanto volume vendido, é necessária, além da tampa especial, uma campanha de esclarecimento, como o cigarro: caso mal armazenado ou utilizado esse produto pode acarretar risco para seu filho. E não acho que isso acarrete imagem negativa para a industria. É responsabilidade social
Estansilau
Não tenho duvida de que a indústria não teria qualquer problema para incluir informações pois nossa preocupação é fornecer bons produtos para a dona de casa e para a limpeza do lar.
Com relação à tampa, já existe esse debate e projetos de lei apresentados aqui e ali, mas há uma preocupação que eu preciso expressar, com relação ao custo. São produtos, em geral, muito baratos, e a preocupação da industria formal é de que esse custo possa aprofundar ainda mais o fosso que existe com a informalidade.
Nós, inclusive, começaremos a trabalhar a questão da informalidade já na próxima semana, no sentido de fortalecer a formalidade e a tampa pode até ser um dos motivos para esse fortalecimento.
Dr. Wong
Com relação à tampa, já tomamos essa medida para remédio e na verdade isso custa menos de 0,01% do custo, o que, em grandes volumes, significa 0,01 centavo de acréscimo ao custo final.
Estanislau
Para remédio essa equação pode ser verdadeira mas não se aplica aos saneantes.
Tania Picchi (entrando no debate neste momento)
Temos bom relacionamento com o setor produtivo além de uma parceria a fim de minimizar os riscos dos os nossos produtos. Tenho gerenciado essa questão desde que assumi minha posição.
Com relação às tampas, temos uma resolução desde o ano passado e esses produtos cáusticos e corrosivos já são obrigados a ter tampa de proteção.
Em relação à rotulagem, como não queremos causar grandes problemas ao setor, gradativamente, à medida em que eles estão trocando os rótulos, as advertências e frases mais abrangentes para coibir o acesso de crianças já estão sendo colocadas.
Portanto, já estamos tomando medidas que estão minimizando muito os acidentes com nossos produtos.
Essa frase está no painel principal, em negrito, com as advertências mais visíveis para o consumidor
Dr. Wong
Tenho uma preocupação pois várias empresas apresentam rótulos indicando para ingestão de água ou clara de ovo caso haja exposição ao produto. Essas indicações são contrárias às da OMS que eu ajudei a fazer inclusive.
Tania
A instrução para "beber água" já está excluída, por indicação dos especialistas da própria ANVISA. Estamos corrigindo os rótulos e, às vezes, a empresa não corresponde no comercio com o que a Agência aprovou.
Ouvinte:
Disse que, quando criança, achava que o esmalte vermelho parecia bala de morando e hoje tem a lembrança da ardência da lingua quando provou o produto.
Apresentador:
A partir dessas novas resoluções, como fica a fiscalização e a Anvisa
Dra Tania
A Vigilância Sanitária - estadual e municipal - é encaregada de fazer a fiscalização, sob orientação do órgão federal, para que possamos fazer um gerenciamento dos riscos dos nossos produtos.
Em paralelo a isso, dentro da nossa área, temos programas de monitoramento desses produtos, tanto os de risco 1 (menos agressivos/perigosos) quanto os de risco 2 (produtos de clinicas, hospitais e inseticidas)
Também contamos muito com as denuncias que nos chegam através da própria comunidade, associações, sindicatos trabalhamos muito com a ajuda da população.
Recebemos a denúncia, vamos investigar o estabelecimento, o comércio, o produto, mandamos para análises, quando necessário fazemos apreensão do produto ou orientamos a emrpesa proceder um recall.
Todo produto cáustico e corrosivo sem tampa especial está ilegal. Façam suas denuncias que tomaremos as providência imediatamente.
Todo rótulo hoje deve passar para a Anvisa, para aprovação.
Encerramento:
Apresentador:
Vamos finalizar falando sobre os clandestinos e medidas em caso de envenenamento.
Luciana
Acho importante divulgar as maneiras de proceder após envenenamento. Nossa informação é que a pessoa procure um centro de toxicologia ou pronto socorro, mas não provoque vômitos ou ingira leite, por exemplo..
Dr. Wong
As mães devem lembrar que toda substância pode ser uma arma na mão de uma criança, por mais inocente que possa parecer e produto de limpeza tem essa característica. Nessa hora não há muita distinção entre o que é ou não clandestino e qualquer um deles pode provocar dano.
Por favor não dêem água ou leite, que podem aumentar e espalhar o produto, provocando danos maiores. Observar a criança, chamar um médico, levar ao pronto socorro ou procurar o centro de intoxicações. O nosso, no Hospital das Clinicas, gratuito, atende 24 horas, e tem um telefone gratuito á disposição para todo o Brasil inclusive das industrias, se quiserem utilizar em seus rótulos 0800-148110.
Existem orientações diferentes para cada tipo de produto. Portanto, não tente fazer os primeiros cuidados sem consultar um especialista.
Tranquem os produtos em lugar alto, longe do alcance das crianças. Às vezes 1 segundo pode mudar a vida da criança pois, se não matar, pode causar problemas para o resto da vida.
Estanislau
Gostaria de deixar, como comentário final, que a solução para essa questão, é a integração de diversos atores, como desde o trabalho de uma ONG como o Criança segura (que tem um trabalho importantíssimo) com Centros de Toxicologia, mas também envolve um trabalho muito próximo da industria com a Anvisa para evitar o roblema da informalidade. Volto a insistir: apesar de produtos formais e informais causarem danos, normalmente os informais são vendidos à granel em embalagens que chamam mais a atenção.
Portanto, donas de casa, tomem muito cuidado com os produtos que são vendidos na porta da sua casa, anunciados como de marcas famosas e que na verdade não são E, se por acaso não resistirem à tentação da compra, acondicionem esse produto de maneira muito cuidadosa.
Dr. Wong
A dona de casa, que acha que esta dando um de esperta ao comprar produto clandestino, às vezes por 1/3 do preço, está trocando gato por lebre porque muitos desses produtos só tem água e corante e não funcionam.
Além disso, muitos produtos estão contaminados por mercúrio, que é muito perigoso.